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Posts Tagged ‘Carlos Drummond de Andrade’

Eu estou lendo o livro: Amar Se Aprende Amando – Carlos Drummond de Andrade. Um dos poemas de que mais gostei até agora desse livro foi esse a seguir, é apenas o segundo livro que leio dele, o primeiro foi o Sentimentos do Mundo, que para dizer a verdade, gostei mais do que estou gostando desse – a Evelyn:  minha bibliotecária favorita u.u Lyani tinha razão, o Sentimentos do Mundo é mais apaixonante, porém eu super recomendo o Amar Se Aprende Amando, há vários poemas maravilhosos neste também, inclusive acredito que o próximo post seja mais outro poema desse livro… Espero que gostem desse, eu amei!

“Atirei um limão n’água
E fiquei vendo na margem
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem

Atirei um limão n’água
E caiu enviesado
Ouvi um peixe dizer
Melhor é o beijo roubado

Atirei um limão n’água
Como faço todo ano.
Senti que os peixs diziam
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água
Como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
Mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão nágua,
Ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes.
Faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
O rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
O rio ficou vermelho.
E cada peixinho viu
Meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
Mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
Me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água
Antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
De amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água
Fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
Da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água
De tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água
Antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
A minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água
Pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
Porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água
Foi tamanho rebuliço.
Que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água
Não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram
Tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água
Caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho.
Fui passado para trás.

Atirei um limão n’água
De clara ficou escura.
Até os peixes já sabe:
Você não ama, tortura.

Atirei um limão n’água
E caí n’água também.
Pois os peixes me avisaram
Que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água
Foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.”

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